EstatísticaparaPesquisa Falar no WhatsApp

Publicação e revisão

Como responder revisores quando você discorda das críticas

agosto 22, 2026 5 min de leitura

Por · CRBM-GO 5438

Nem todo comentário de revisor está certo. Revisores erram, interpretam mal um trecho, pedem análises inadequadas ou fazem exigências fora do escopo do estudo. Saber discordar — de forma técnica e respeitosa — é uma habilidade tão importante quanto saber acatar. Ceder a tudo pode piorar o artigo; brigar com tudo o inviabiliza. O bom autor navega entre os dois.

Primeiro, entenda de verdade a crítica

Antes de decidir discordar, releia o comentário algumas vezes e considere a possibilidade de que o revisor esteja certo — ou de que tenha razão sobre um problema real, mesmo propondo a solução errada. Com frequência, uma crítica “equivocada” na verdade aponta que algum trecho ficou confuso. Nesse caso, a resposta não é discordar, e sim reescrever para eliminar a ambiguidade. Isso conecta ao princípio de clareza tratado na estrutura da carta-resposta.

Discorde com evidência, nunca com opinião

Quando a discordância é genuína e fundamentada, a chave é ancorar sua posição em evidência externa, não na sua autoridade. “Discordamos porque achamos que…” é fraco. “Optamos por manter a análise porque, conforme [referência], o método X é apropriado para este desenho, ao passo que o método sugerido pressupõe [condição] não atendida em nossos dados” é forte. Cite diretrizes, artigos metodológicos e livros-texto. Em questões estatísticas, referências consolidadas dão respaldo — por exemplo, ao defender a escolha entre odds ratio e risco relativo, ou o uso de um modelo específico, os argumentos de interpretação de odds ratio e dos pressupostos do modelo costumam ser decisivos.

A fórmula: reconhecer, explicar, propor alternativa

Uma estrutura eficaz para discordâncias tem três movimentos. Reconheça o mérito da preocupação do revisor (“Entendemos a preocupação com…”). Explique por que a sugestão específica não se aplica ao seu caso, com evidência. E, quando possível, ofereça uma alternativa que atenda ao espírito da crítica — adicionar uma análise de sensibilidade, uma limitação explícita na discussão, ou um esclarecimento no texto. Essa concessão parcial mostra que você levou o comentário a sério, mesmo sem acatá-lo integralmente.

Quando ceder mesmo achando desnecessário

Há batalhas que não valem a pena. Se a exigência do revisor é inócua — não prejudica o trabalho e é fácil de atender —, ceda, ainda que você a considere supérflua. Reserve o capital de discordância para os pontos que realmente importam à integridade científica do estudo. Discordar de tudo esgota a paciência do editor e do revisor.

O editor é o árbitro final

Lembre-se de que você não precisa convencer o revisor, e sim o editor, que toma a decisão. Se um revisor mantém uma exigência que você considera improcedente após sua resposta fundamentada, você pode, com diplomacia, dirigir-se ao editor explicando o impasse. Faça isso raramente e com muita educação. Iniciativas de ética editorial como o COPE orientam esse tipo de situação e reforçam que o diálogo deve ser sempre profissional.

O que nunca fazer

Jamais responda com ironia, sarcasmo ou tom de superioridade. Nunca acuse o revisor de incompetência, mesmo que a crítica seja de fato equivocada. Não ignore comentários por discordar deles — todo ponto merece resposta, ainda que seja para explicar por que não foi acatado. Antecipar as críticas mais prováveis na própria redação reduz muito o atrito, tema de erros estatísticos que fazem revisores rejeitarem artigos.

Um exemplo concreto de discordância bem conduzida

Imagine que um revisor exige a troca de uma regressão log-binomial por uma regressão logística, argumentando que “logística é o padrão”. Você usou log-binomial de propósito, porque seu desfecho é comum e você queria estimar razões de prevalência, não razões de chances. Uma resposta forte reconheceria a preocupação, explicaria a razão da escolha com apoio na literatura — o fato de que o odds ratio superestima o risco relativo quando o desfecho é frequente, ponto tratado em interpretação de odds ratio — e, como concessão, ofereceria apresentar também os resultados da logística em material suplementar, para que o leitor possa comparar. Isso mantém a decisão metodológica correta sem confrontar o revisor.

Documente a decisão no próprio manuscrito

Quando você discorda e mantém uma escolha, é prudente deixar o texto do manuscrito mais explícito sobre aquela decisão, mesmo que ninguém além do revisor a tenha questionado. Se um parecerista teve a dúvida, futuros leitores também terão. Acrescentar uma frase justificando o método na seção de análise ou reconhecendo uma limitação na discussão transforma a crítica em melhoria do artigo. Assim, mesmo uma discordância vira ganho de qualidade — e é isso que o editor quer ver.

Referências

  • Committee on Publication Ethics (COPE). Ethical guidelines for peer reviewers. Disponível em: publicationethics.org.
  • International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE). Recommendations. Disponível em: icmje.org.
  • Hosmer DW, Lemeshow S, Sturdivant RX. Applied Logistic Regression. 3ª ed. Wiley; 2013.

Precisa de apoio estatístico na sua pesquisa?

Mande o projeto, a planilha ou o parecer do revisor. Devolvo escopo, prazo e preço fechado em até 2 dias úteis.