Publicação e revisão
Como responder revisores quando você discorda das críticas
Nem todo comentário de revisor está certo. Revisores erram, interpretam mal um trecho, pedem análises inadequadas ou fazem exigências fora do escopo do estudo. Saber discordar — de forma técnica e respeitosa — é uma habilidade tão importante quanto saber acatar. Ceder a tudo pode piorar o artigo; brigar com tudo o inviabiliza. O bom autor navega entre os dois.
Primeiro, entenda de verdade a crítica
Antes de decidir discordar, releia o comentário algumas vezes e considere a possibilidade de que o revisor esteja certo — ou de que tenha razão sobre um problema real, mesmo propondo a solução errada. Com frequência, uma crítica “equivocada” na verdade aponta que algum trecho ficou confuso. Nesse caso, a resposta não é discordar, e sim reescrever para eliminar a ambiguidade. Isso conecta ao princípio de clareza tratado na estrutura da carta-resposta.
Discorde com evidência, nunca com opinião
Quando a discordância é genuína e fundamentada, a chave é ancorar sua posição em evidência externa, não na sua autoridade. “Discordamos porque achamos que…” é fraco. “Optamos por manter a análise porque, conforme [referência], o método X é apropriado para este desenho, ao passo que o método sugerido pressupõe [condição] não atendida em nossos dados” é forte. Cite diretrizes, artigos metodológicos e livros-texto. Em questões estatísticas, referências consolidadas dão respaldo — por exemplo, ao defender a escolha entre odds ratio e risco relativo, ou o uso de um modelo específico, os argumentos de interpretação de odds ratio e dos pressupostos do modelo costumam ser decisivos.
A fórmula: reconhecer, explicar, propor alternativa
Uma estrutura eficaz para discordâncias tem três movimentos. Reconheça o mérito da preocupação do revisor (“Entendemos a preocupação com…”). Explique por que a sugestão específica não se aplica ao seu caso, com evidência. E, quando possível, ofereça uma alternativa que atenda ao espírito da crítica — adicionar uma análise de sensibilidade, uma limitação explícita na discussão, ou um esclarecimento no texto. Essa concessão parcial mostra que você levou o comentário a sério, mesmo sem acatá-lo integralmente.
Quando ceder mesmo achando desnecessário
Há batalhas que não valem a pena. Se a exigência do revisor é inócua — não prejudica o trabalho e é fácil de atender —, ceda, ainda que você a considere supérflua. Reserve o capital de discordância para os pontos que realmente importam à integridade científica do estudo. Discordar de tudo esgota a paciência do editor e do revisor.
O editor é o árbitro final
Lembre-se de que você não precisa convencer o revisor, e sim o editor, que toma a decisão. Se um revisor mantém uma exigência que você considera improcedente após sua resposta fundamentada, você pode, com diplomacia, dirigir-se ao editor explicando o impasse. Faça isso raramente e com muita educação. Iniciativas de ética editorial como o COPE orientam esse tipo de situação e reforçam que o diálogo deve ser sempre profissional.
O que nunca fazer
Jamais responda com ironia, sarcasmo ou tom de superioridade. Nunca acuse o revisor de incompetência, mesmo que a crítica seja de fato equivocada. Não ignore comentários por discordar deles — todo ponto merece resposta, ainda que seja para explicar por que não foi acatado. Antecipar as críticas mais prováveis na própria redação reduz muito o atrito, tema de erros estatísticos que fazem revisores rejeitarem artigos.
Um exemplo concreto de discordância bem conduzida
Imagine que um revisor exige a troca de uma regressão log-binomial por uma regressão logística, argumentando que “logística é o padrão”. Você usou log-binomial de propósito, porque seu desfecho é comum e você queria estimar razões de prevalência, não razões de chances. Uma resposta forte reconheceria a preocupação, explicaria a razão da escolha com apoio na literatura — o fato de que o odds ratio superestima o risco relativo quando o desfecho é frequente, ponto tratado em interpretação de odds ratio — e, como concessão, ofereceria apresentar também os resultados da logística em material suplementar, para que o leitor possa comparar. Isso mantém a decisão metodológica correta sem confrontar o revisor.
Documente a decisão no próprio manuscrito
Quando você discorda e mantém uma escolha, é prudente deixar o texto do manuscrito mais explícito sobre aquela decisão, mesmo que ninguém além do revisor a tenha questionado. Se um parecerista teve a dúvida, futuros leitores também terão. Acrescentar uma frase justificando o método na seção de análise ou reconhecendo uma limitação na discussão transforma a crítica em melhoria do artigo. Assim, mesmo uma discordância vira ganho de qualidade — e é isso que o editor quer ver.
Referências
- Committee on Publication Ethics (COPE). Ethical guidelines for peer reviewers. Disponível em: publicationethics.org.
- International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE). Recommendations. Disponível em: icmje.org.
- Hosmer DW, Lemeshow S, Sturdivant RX. Applied Logistic Regression. 3ª ed. Wiley; 2013.