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Escala Likert: como analisar questionários sem distorcer os resultados

setembro 16, 2026 8 min de leitura

Participante respondendo questionário para análise de escala Likert

Por · CRBM-GO 5438

Uma escala Likert parece simples: a pessoa marca opções como “discordo totalmente” ou “concordo totalmente”, e o pesquisador transforma as respostas em números. O problema começa quando esses números são tratados automaticamente como medidas contínuas, somados sem verificar a estrutura do instrumento ou submetidos a testes que não respondem à pergunta do estudo.

Participante respondendo questionário para análise de escala Likert
Foto: ODISSEI / Unsplash.

Item Likert e escala Likert não são a mesma coisa

Um item Likert é uma única afirmação com categorias ordenadas de resposta. Uma escala é o conjunto de vários itens construídos para medir um conceito latente, como satisfação, ansiedade ou percepção de suporte. Essa distinção muda a análise. Um item isolado é ordinal; a pontuação composta pode, em determinadas condições e com justificativa, ser analisada como aproximadamente contínua.

Antes de calcular qualquer média, consulte o instrumento original: quais itens pertencem a cada domínio, quais têm pontuação invertida, como lidar com respostas ausentes e se existe transformação para uma faixa padronizada. Alterar categorias ou remover itens pode comprometer a validade. Se a coleta foi feita digitalmente, a análise de Google Forms e questionários deve começar pela conferência da codificação.

Por que atribuir 1, 2, 3, 4 e 5 exige cuidado

Os números preservam a ordem das categorias, mas não provam que a distância psicológica entre “discordo” e “neutro” seja igual à distância entre “concordo” e “concordo totalmente”. Por isso, média e desvio-padrão de um item único podem ocultar assimetria e concentração. Frequências e porcentagens por categoria geralmente são a descrição mais transparente.

Para uma escala composta por muitos itens coerentes, a soma ou média pode assumir vários valores e se comportar de modo mais próximo de uma variável contínua. Ainda assim, essa decisão deve considerar distribuição, efeito de piso ou teto, tamanho da amostra, objetivo da análise e evidências de validade. Não basta dizer que “Likert sempre é não paramétrica” ou que “com cinco categorias tudo vira contínuo”.

Como preparar o banco

  • Mantenha um dicionário com o texto, código e direção de cada item.
  • Confirme se respostas como 0, 99 ou vazio significam categoria, não resposta ou erro.
  • Recodifique itens invertidos antes de calcular os escores.
  • Calcule o escore apenas com a regra prevista pelo instrumento.
  • Preserve as respostas originais em uma base bruta imutável.
  • Documente exclusões, transformações e versões do questionário.

Um erro frequente é inverter o rótulo sem inverter o valor, ou vice-versa. Em uma escala de 1 a 5, um item reverso costuma ser transformado por uma regra como 6 menos a resposta, mas isso só vale se as categorias forem exatamente essas e se o manual indicar reversão. Depois da recodificação, confira se correlações entre itens têm direção plausível.

Como descrever as respostas

Para itens individuais, apresente n e porcentagem em cada categoria, preferencialmente com um gráfico de barras divergentes quando o objetivo for comparar padrões. Para a pontuação total, informe número de itens, faixa possível, faixa observada, medida de centro e dispersão. Se a distribuição for assimétrica, mediana e intervalo interquartil podem ser mais informativos.

Não esconda respostas ausentes no denominador. Informe quantas pessoas responderam a cada item e como o escore foi calculado quando faltaram uma ou mais respostas. Em escalas com domínios, apresente resultados por domínio apenas se essa estrutura fizer parte da validação do instrumento.

Consistência interna não prova validade

O alfa de Cronbach é frequentemente tratado como um selo de qualidade, mas ele depende do número de itens, da correlação entre eles e de pressupostos que podem não ser atendidos. Um alfa alto pode surgir por redundância. Um alfa baixo pode ocorrer em um construto amplo ou com poucos itens. Quando possível, considere também ômega e examine correlações item-total e estrutura dimensional.

Consistência interna não demonstra que a escala mede o construto pretendido, nem substitui análise fatorial, validade de conteúdo ou validade em relação a outras medidas. Se o instrumento foi adaptado para outra população ou idioma, a validade precisa ser sustentada no novo contexto. O post sobre estatística para pesquisa em psicologia aprofunda esses cuidados.

Qual teste usar com escala Likert?

Comparação de um item entre grupos

Quando o desfecho é um item ordinal, testes como Mann–Whitney ou Kruskal–Wallis podem comparar distribuições ou localizações sob determinadas condições. Eles não são testes universais de medianas. Para ajustar covariáveis e interpretar probabilidades por categoria, a regressão logística ordinal pode ser mais adequada, desde que seus pressupostos sejam avaliados.

Pontuação total entre grupos

Uma pontuação composta pode ser comparada com modelos lineares quando resíduos e forma funcional forem aceitáveis e a interpretação fizer sentido. Alternativas robustas, modelos generalizados ou métodos ordinais podem ser necessários. O tamanho da amostra não transforma automaticamente uma medida inválida em válida; ele apenas influencia a aproximação amostral.

Antes e depois ou medidas repetidas

Respostas da mesma pessoa são dependentes. Comparar pré e pós como se fossem grupos independentes está errado. Dependendo da escala e do número de momentos, podem ser usados teste de Wilcoxon pareado, modelos lineares mistos, modelos ordinais mistos ou equações de estimação generalizadas. A escolha deve refletir o estimando e o padrão de ausência.

Associação com outras variáveis

Correlação de Spearman pode resumir associação monotônica entre escores, mas não ajusta confundidores e não resolve problemas de mensuração. Regressões permitem incluir covariáveis, interações e efeitos de cluster. O guia qual teste estatístico usar ajuda a organizar a decisão pela pergunta, pelo desenho e pelo tipo de variável.

Regressão logística ordinal: quando faz sentido

A regressão ordinal modela a probabilidade acumulada de estar em categorias mais altas ou mais baixas. Um modelo comum assume odds proporcionais: o efeito de um preditor é o mesmo em diferentes pontos de corte. Essa hipótese precisa ser examinada. Se falhar, modelos parciais, multinomiais ou outras estratégias podem representar melhor os dados.

O resultado deve ser traduzido com cuidado. Uma razão de chances maior que 1 pode indicar maior chance de respostas em categorias superiores, conforme a codificação. Mostre intervalos de confiança e, quando possível, probabilidades previstas; elas são mais compreensíveis para leitores não estatísticos.

Erros que mais aparecem em TCCs e artigos

  • Somar itens de construtos diferentes para criar um escore sem base teórica.
  • Ignorar itens invertidos ou recodificá-los duas vezes.
  • Usar alfa como única evidência de validade.
  • Aplicar teste t a um item isolado sem justificar a métrica.
  • Dicotomizar respostas e perder informação sem necessidade.
  • Testar cada item separadamente e ignorar múltiplas comparações.
  • Omitir o instrumento, a versão, a faixa do escore e as regras de pontuação.

Como escrever os métodos e resultados

Nos métodos, identifique o instrumento, versão, população de validação, número de itens, categorias de resposta, domínios, itens invertidos, regra de pontuação e tratamento de ausência. Explique por que o escore foi tratado como ordinal ou contínuo e quais pressupostos foram avaliados. Nos resultados, combine estimativas, intervalos de confiança e gráficos claros.

Evite afirmar que uma intervenção “aumentou a satisfação” apenas porque o valor-p ficou abaixo de 0,05. Informe a magnitude da diferença, a incerteza e a relevância prática. Se a escala tem uma diferença mínima clinicamente importante validada, ela pode orientar a interpretação; não invente esse limite depois da análise.

Checklist antes de analisar

  • O construto e o escore estão definidos antes da análise?
  • A versão do instrumento é válida para a população?
  • Itens reversos e ausentes foram tratados conforme o manual?
  • A descrição mostra as categorias, e não apenas uma média?
  • O teste respeita independência, pareamento e repetição?
  • A interpretação informa magnitude e incerteza?

A pergunta correta não é “Likert pode ter média?”, mas “qual representação dos dados responde à pergunta sem esconder a estrutura ordinal e a incerteza?”.

Quando o questionário tem vários domínios, regras incompletas ou desenho longitudinal, planejar antes evita decisões oportunistas. Um plano de análise estatística registra escores, comparações e análises de sensibilidade antes de olhar os resultados.

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